Que a imprensa tem todo o direito de criar esquentar o clima antes de qualquer decisão isso é indiscutível, bom para ela e mesmo interessante para os clubes: torcedores mais ansiosos e interessados vão aos estádios, consomem mais, ouvem mais rádios, lêem mais jornais, não perdem os programas esportivos das televisões.
Daí que a mínima cara feia feita por um jogador em algum recreativo ou treinamento antes da partida vira logo um problema médico de solução improvável, ouve-se o jogador prometer que vai jogar na raça e por aí vai. Quem não gosta desse clima? A cidade fica em polvorosa, até quem nem presta muito atenção a futebol já escolhe um time, decisão é decisão. Treinador esconde escalação, proíbe a torcida de ver o treino final (este ano o Santa Cruz até deixou o Arruda!) e tudo mais que coopera para que a decisão seja verdadeiramente decisiva, como se a história dos clubes envolvidos dependesse daquele(s) jogo(s) para continuar.
Não foi diferente este ano em relação às duas partidas finais do Pernambucano 2006, no entanto, o que chamou a atenção do METIOPÉ - e alguns dos que acessaram o blog fizeram menção ao fato - foi uma nota publicada no Jornal do Commercio (e JC On Line) no dia 08 de abril, um sábado, dia antes da segunda, última e decisiva partida entre o Sport e o Santa Cruz.
Analisemos o teor da nota (sem destaques no original)
Tricolor faz mistério para ser bicampeão
O técnico Giba achou melhor isolar o elenco do burburinho que ecoa pela cidade, pegando de surpresa os setoristas da imprensa que cobrem o clubeNão vai ser por falta de mistério que o Santa Cruz deixará de levantar o bicampeonato estadual, amanhã, na Ilha do Retiro. Ao chegar no Arruda, ontem, a imprensa foi informada que os relacionados para o embate decisivo não treinariam no estádio coral. Por volta das 16h30, descobriu-se que o atletas estavam no Estádio Gileno de Carli, no Cabo. Segundo informações de bastidores, os tricolores estão hospedados num hotel do município, situado na orla. Toda a manobra para despistar os meios de comunicação gerou uma pergunta simples: até que ponto o mistério pode ser vantajoso num jogo final?
Ao ser indagado, o assistente-técnico Ramon Ramos se negou a qualquer tipo de comentário. Os que sobraram da lista de jogadores que vai atuar no encontro, no entanto, não se furtaram ao “interrogatório” dos repórteres. Apesar de surpreso, Zada concordou com a decisão de colocar o grupo num lugar tranqüilo, longe do burburinho da cidade, que respira a final.
“Existe muito oba oba em cima do jogo. O importante agora é o time ter tranqüilidade e ficar concentrado ao máximo. Isso é importante”, afirmou o meia, que não pôde ser inscrito a tempo para o Estadual. “Agora, toda ação leva a uma reação. Se o time perder, o que acho que não vai ocorrer, Giba vai ter de responder por tudo isso que foi feito”, complementou o atleta.
Em 2002, o técnico Péricles Chamusca tomou uma atitude semelhante. Tinha vencido o primeiro jogo da final contra o Náutico (1x0), e resolveu se esconder do “mundo”, a fim de traçar uma tática misteriosa para vencer o Timbu. O mistério foi dissipado no início do encontro. O treinador coral colocou três zagueiros e escalou o volante Faeco, que havia jogado poucas vezes no estadual daquele ano. Resultado: o alvirrubro venceu o jogo por 3x0, no Arruda, e tornou-se bicampeão.
DISPENSAS – Enquanto os atletas treinavam num canto “desconhecido”, os corredores do clube ferviam. De acordo com informações de bastidores, depois do jogo final, mais precisamente na segunda-feira, seis atletas receberão o bilhete azul da direção: os mais cotados são o zagueiro Roberto, os laterais Édson Mendes e Peris, o volante Fernando Miguel, o meia Alex Oliveira e o atacante Marco Brito.
As dispensas abrem possibilidade de contratação. Sete nomes já estão na lista de aquisições, que viriam para ser titulares. O nome dos atletas foram repassados pelo técnico Giba, que visa mudar alguns setores do time titular, que não estariam a seu gosto. As informações não foram confirmadas pela direção.
Que o plantel do Santa Cruz vai ser reformulado, nem o mais apaixonado dos tricolores tem dúvidas (ou falta de esperança que isso ocorra e rapidamente). O que foi uma atitude totalmente reprovável foi o jornal publicar a "perua" de que já estava pronta uma lista de dispensa UM DIA ANTES DA PARTIDA FINAL, inclusive citando nomes de seis atletas.
O que viriam a ser "informações de bastidores"? Fofocas? Conversas de diretores ou discussões de torcedores? É ético publicar uma notícia de tamanho impacto dentro do elenco justamente antes da última partida do campeonato? Contrariando uma quase norma dentro das notícias esportivas, a notícia ainda se deu o trabalho de relembrar que Chamusca tinha feito isso em "2002" (2002, o técnico era Heron Ferreira; Chamusca dirigia o Santa Cruz na final de 2004) e que o Santa Cruz tinha perdido de forma espantosa o título dentro de casa, uma ilação grosseira para mostrar que o time do segredo perderia (que perdeu nos penalties e não quando escondeu o jogo, pois o gol da vitória no segundo jogo foi decorrente de uma jogada ensaiada e não conhecida do time adversário - o que não quer dizer que fazer segredo garante vitórias).
Quando na última partida do Segundo Turno do Pernambucano 2006, o Santa Cruz prometeu mala preta e cedeu o Arruda para o Vitória treinar, na esperança do milagre de ver o último colocado e já rebaixado time interiorano vencer, na casa do adversário, um time que precisava da vitória para disputar as finais, foi divulgado - atendendo apenas à versão do dirigente e torcedor (daí não se esperar que diga a verdade senão sob seu ponto de vista) Homero Lacerda - que jamais tal fato ocorrera no futebol. Uma lástima que a recuperação histórica da verdade, então, tenha sido desprezada, pois, sem muito esforço, lembramos de outro Vitória, o baiano, que, ofereceu o estário, o alojamento e ainda prometeu prêmio em dinheiro para que um time visitante vencesse o time do Bahia, condição necessária para que o tricolor baiano caísse para a Segunda Divisão. Não foi daquela vez que o Bahia caiu, pois venceu o bem recepcionado visitante e escapou do rebaixamento. E olhe que a "briga" dos baianos sequer beneficiava o time do Vitória: foi apenas para conturbar o adversário.
Pois é, lembrando passado e divulgando verdadeira "bomba" (a notícia foi divulgada à exaustão pelas rádios no dia do jogo, o domingo), será que o Jornal do Commercio agiu com ética? Clubismo? Corrupção? Ignorância? Fofoca? Profissionalismo inexistente? Com a palavra, o Jornal do Commercio (enviaremos esta mensagem por email).
Coronel Peçonha.
p.s.: Transcrevamos uma das notícias publicadas no mesmo dia, no mesmo jornal, abaixo. Uma falava sobre a existência de um espião do Santa Cruz filmando o treino do Sport. A outra, sobre o "clima" no plantel rubro-negro. O "mesmo" tratamento:
Vitórias no Sertão foram fundamentais
O Sport chega à decisão de amanhã, na Ilha do Retiro, contra o Santa Cruz, numa fase de crescimento. O time teve momentos de fraqueza no primeiro turno, mas o rendimento melhorou. A prova é que está há 11 jogos invictos. Todos concordam que os jogos fundamentais que alavancaram a chegada à decisão foram as duas vitórias no Sertão diante do Serrano, dia 19 de fevereiro, quando os rubro-negros venceram por 3x1, em Serra Talhada, e dia 1º de março ao aplicarem 1x0 em cima do Salgueiro.
O início do segundo turno, no entanto, o time foi tropeçando, na Ilha, no empate por 2x2 diante do Estudantes. “Foi um começo ruim. Mas sabíamos que o grupo poderia reagir. As duas vitórias no Sertão nos deram essa confiança. O Sport chegou à final por merecimento”, ressaltou o lateral Marcos Tamandaré.
O meia Geraldo ainda destacou: “Os seis pontos no Sertão nos deixaram certos de que a reação havia começado. Afinal, o Sport foi o único grande que venceu lá”.
Outro motivo para a reação foi a unidade do grupo e comando do técnico Dorival Júnior. “O elenco respondeu de forma positiva todo o nosso planejamento. O Sport é um time solidário, unido e determinado. Por isso, chegamos nas finais e os jogadores fizeram o máximo.”
Todos, no entanto, sabem que o jogo de amanhã é o mais importante, como bem lembrou o meia Welington. “Será todo um trabalho colocado em campo. Não podemos errar. O Santa Cruz tem um time muito forte, bem treinado e rápido. Será uma decisão bastante equilibrada.”